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Os jovens e a aceitação dos idosos na informática

O ALMIRANTE E A MARIPOSA (Ronaldo F. Cavalcante)

  • "Esses véi que não saca nada de informática, fica catando milho no computador na maior impata" – Comentava com seu colega um aluno irritado por uma professora estar ocupando um computador, impedindo-o de ver o face dele.

  • "Pois é mano, inda mais mulher. Esse povo ainda não sabe que informática é pra gente, que tá com sangue na guerra, e fica aí f... com a paciência da gente. Tem professor que ensina informática e a turma dá de dez a zero nele. Agente enrola, joga, carrega programa o tempo todo e ele nem nota".

Logicamente que os dois alunos não me viram porque eu estava atrás de um dos pilares da cantina. Estava deliciosamente curtindo meu último dia de atividade na escola antes das férias desse ano. Tinha pedido um sanduíche (o lavoisier estava de meter medo; ralo, com a cor de burro-quando-foge) e degustava o mesmo pausadamente, consumindo cada migalha. Até um pedaço do queijo que caíra na mesa foi recuperado (depois de obedecer à regra dos 5 segundos) com a desculpa de testar meu sistema imunológico com alguns microbiozinhos inocentes. Me lembrava o Exército no fim de expediente das sextas-feiras, quando meu nome não saía na escala de plantão do fim de semana. Avançava o rancho no fim da fila, pegava o bandejão (V.O. para os íntimos) e comia lentamente aquele sobe-desce coalhado na gordura, como se fora uma ceia de Natal.

Sinceramente eu torci para que alguém aparecesse e me tirasse daquele sufoco. Como não surgia ninguém e os jovens, possíveis alunos de informática, continuavam com seu depreciativo diálogo, larguei repentinamente a merenda e me senti na obrigação de participar da conversa sem ser convidado:

  • Senhores, desculpe a intromissão, mas gostaria de fazer uma pergunta, pode ser?

  • Manda - falou o primeiro com ar desafiador.

  • Já ouviram falar em Almirante Hopper?

  • Entendi. O senhor é um desses professores de informática da antiga e estava escutando nossa conversa escondido. – Disse o segundo aluno, talvez analisando meu aspecto jurássico.

  • Nada disso. Eu já estava aqui quando vocês chegaram falando alto, sem observar em volta. E aí ? Alguém responde, ou vão sair pela tangente (se é que sabem o que é tangente)?

  • Que qui tem a ver esse almirante com a gente? A gente entende é de computador, não de militarismo. Já somos concluintes.

  • Não é “esse” mas “essa” Almirante. Sim, uma mulher. Uma anciã.

  • Que tem a ver ?

  • Muito, afinal vocês são praticamente técnicos em informática. São feras em bits-bytes e deveriam conhecer como o computador chegou ao que é hoje. Imagino que pelo menos devem saber algo sobre linguagem de máquina, assembly, Mark II, Mark I, Eniac, Univac, Cobol, Fortran, bug e outros bichos ...

  • ???

  • Pelo menos devem conhecer a história do almirante e a mariposa...

  • Peraí, fábula? Isso é uma escola técnica, não jardim de infância.

  • O QUÊ?! Não conhecem a história do ALMIRANTE E A MARIPOSA, tão propagada em fóruns na Internet? E se vangloriam de “sacarem” de computação?

Visto que os peguei de surpresa, e ganhei um pouco de atenção, apanhei calmamente meu resto de sanduíche, e, com um leve riso de canto de boca, puxei uma cadeira e passei a contar a história dessa valorosa mulher. Agora, já a todo ouvidos e sem a indignação inicial.

  • Pouco antes da segunda grande guerra, a então Tenente da Marinha Grace Hopper, americana, com quase quarenta anos (idosa para a época) recebeu como primeira missão, no prazo de 3 dias, calcular os coeficientes da série de arcos-tangentes, usando a ACC (Automatic Sequence Controlled Calculator) , uma máquina calculadora eletromecânica que pesava 35 toneladas, e continha mais de 80 km de fio interligando seus relés, tendo como entrada e saída centenas de cartões perfurados. Essa máquina era baseada na ideia de Babbage, considerado o inventor do computador main-frame, embora não tivesse oportunidade de construí-lo.

  • E ela deu conta? – perguntou o mais destemido, já se interessando pela história.

  • Não só cumpriu a missão programando em linguagem de máquina, como escreveu o manual de operação desse monstrengo, num calhamaço de 500 páginas, lançando em primeira mão, o princípio operacional dos computadores. Durante a guerra, essa mulher de sangue na guerra, como vocês se intitulam, já desenvolvia o Mark, o primeiro computador do mundo, além de aperfeiçoar a ACC e inventar o conceito de compilador.

  • Cara ! – disse o segundo aluno, parecendo espantado.

  • Cara não, coroa. Já com mais de 50 anos, assumiu o controle da construção do UNIVAC (Universal Automatic Computer), o primeiro computador à válvula do planeta, e desenvolveu, pessoalmente, um compilador para essa máquina. Depois disso seus trabalhos lhe renderam tantos títulos que nem ela mesma tinha conhecimento. Só de “Dra. Honoris Causa” foram mais de dez, nas mais famosas Universidades. Só aceitou se reformar da Marinha dos Estados Unidos, como Almirante, aos 80 anos de idade à pleno vapor. Isso, depois de ter desenvolvido o COBOL (quinze anos antes da popularização de orientação a objeto), inventado o conceito de ASSEMBLY e criado essa linguagem. É, caríssimos, antes do assembly, hoje ainda usado em PIC e CLP, a programação era na base do 00110011000111...(risos). Entretanto, com todo esse curriculum, ela é mais conhecida mundialmente por outro fato.

  • Qual ? – falaram em uníssono.

  • O fato de ter inventado o termo “bug”, tão conhecido internacionalmente.

  • Sei, o tal inseto que provocou defeito no computador – disse um deles.

  • Isso foi durante o desenvolvimento de Mark II, em 1946, quando um dos relés teimava em não operar, mesmo energizado, criando um bit zero onde deveria ter bit um. Ela percorreu aquela imensidão de relés, um a um, e descobriu que se tratava de uma mariposa que havia morrido entre os contatos do relé número 70 no painel F.

  • Disso nós tínhamos uma idéia.

  • Então, ela retirou a mariposa morta, prendeu-a com fita adesiva na página 92 do livro de ocorrência, no dia 9 de setembro às 15 horas, com os seguintes dizeres: “First actual case of bug being found” (primeiro caso real de bug encontrado). Esse livro encontra-se no museu da Marinha dos EUA com o inseto preso. Daí, a história do Almirante e a Mariposa (não a fábula).

  • Então viveu muito a velhinha – disse o primeiro já em tom de respeito.

  • Faleceu há pouco tempo, em 1992, com quase noventa anos de idade, e ainda rabiscando algo sobre computadores do futuro. Vocês já deviam estar se iniciando nessa máquina.

  • É verdade – disse o mais velho. – Eu já digitava no Word e rabiscava o Paint.

  • Então, da próxima vez que virem alguém mais velho tateando um teclado, em vez de depreciá-lo, tentem ajudá-lo com suas experiências. Foi exatamente isso que a Almirante Hopper, a velhinha, fez até o fim.

Levantei-me logo, para não embaraça-los, mas não resisti a tentação: sem que me vissem, apontei para o mais afobado com três dedos da mão direita dobrados, indicador e polegar estendidos em forma de L, movimentei o polegar rápido para frente e em seguida assoprei a fumaça que ainda escapava do indicador . Afinal sou humano, erro muito.

4 anos atrás

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